sábado, 6 de fevereiro de 2010

cronicidades 6

Os 101 dias…

O filme é de suspensão social e política, a qual se abre a todas as excepções possíveis. Sabemos o início e o meio mas ainda não sabemos o fim da história. Sabemos que tudo começa com a Sedução e no meio há uma série de Sacrifícios e, portanto, alguns heróis. Com a história toda contada perceberemos o que aconteceu com um país e um povo que demora quase tanto tempo a fazer o luto de um regime autoritário quanto o tempo que ele durou.

O cenário é o da hipoteca económica de um país, que se torna o pretexto de uma hipoteca moral e política. Apresenta-se-nos a aceitação do abuso de poder, pelo medo da bancarrota, revelando um povo amordaçado, amarrado e sem valores morais e políticos… ou seja, a ausência de um povo.

O personagem principal é um cidadão que utiliza o poder de um órgão de soberania para elaborar um plano cujo objectivo é o de silenciar todos os outros poderes (o da sociedade civil e das corporações, o dos media, o judicial, o legislativo-presidencial, …) em favor do usufruto de mais poder. Estamos perante um plano simples de abuso de poder e um abuso do mandato de representação em que, a partir de um órgão de soberania, o tal protagonista utiliza o poder conferido por tal órgão para diminuir todos os outros poderes do Estado e da Sociedade. O espectador vai vislumbrando indícios de estar a ver mais um enredo palaciano, uma espécie de plano de golpe de Estado constitucional. Tal plano de abuso de poder configuraria um atentado ao Estado de Direito, um atentado ao próprio regime evidenciando a possibilidade de uma tirania, de um regime autoritário ou de um fascismo político. No entanto, por um lado, o regime estava gasto, o Estado exaurido economicamente, a sociedade cansada, por outro lado , o protagonista é simpático e faz bem de vitima. E o espectador vai dizendo, de si para si, que tal plano é um exagero…ou talvez não!

Ao longo da história vão-se contando não mais de meia-dúzia de heróis com consciência social, um número crescente de sacrificados por um lado, de desistentes e cépticos por outro, e uns poucos lutadores de segunda linha, esbracejantes, que se admiram todos os dias do Estado e do Povo impotente.

O espectador vai pensando que os representantes têm tão só um mandato de representação e ainda é possível, até ao fim da história, que os poderes estatais fragilizados, pela hipoteca económica, resistam a uma hipoteca moral e política do país e do povo. Mas essa interpretação dos valores do Regime tem de lutar contra a própria burocracia suspensiva estatal que, em si mesmo, faz parte do plano. Aos 101 dias o momento é o do clímax: o regime está em causa e, portanto, cabe ao representante do regime a Palavra.

Caso o Estado esteja demasiado fragilizado, talvez ainda seja possível que os espectadores deste filme finalmente percebam que a sua função não é a de votar de 4 em 4 anos e permanecer num estado zombie, alucinados pela sedução fílmica dos actores do poder, o resto do tempo. Se os poderes do Estado estiverem demasiados fragilizados, talvez seja possível que os espectadores se levantem das cadeiras e decidam de vez entrar no filme que pagam para ver. É bonito pensar na possibilidade da desobediência civil dos espectadores deste filme mau. Mas se tantos na fila da frente se sentaram a ver a filme, completamente seduzidos, não é fácil que os demais espectadores que estão na grande plateia se levantem. E depois pode ser já tarde demais!

E já vimos filmes destes!

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